Viver com Depressão


2014 foi o ano em que fui diagnosticada com Depressão.

Começou com uma série de acontecimentos. Agressão física por parte de um familiar, fim de um noivado de três anos, descoberta de uma doença e uma profunda solidão. Tudo isso somado a minha predisposição a doença gerou uma explosão dentro de mim. Na época trabalhava em uma grande empresa na qual me sentia valorizada e motivada. Frequentava academia, tinha uma vida agitada e cheia de acontecimentos, tinha planos para o futuro, almejava terminar a faculdade, comprar uma casa, um carro, falar inglês, tocar violão, era otimista, tinha sonhos que não encontravam barreiras, lutava muito por meus ideias. Viver com depressão mudou tudo.

Uma tristeza muito profunda se instalou e comecei a sentir o vazio que crescia e uma dor horrível me dominou. Agora dormia no máximo 3 horas e sempre quando o dia estava amanhecendo. Comecei a me atrapalhar no trabalho, me faltava forças para me arrumar e me organizar. Eram necessários dois dias e duas noites acordada para então conseguir dormir. Tentava viver como se estivesse tudo bem, mas não passava um dia sem beber para conseguir dormir e fumar para aliviar o estresse.

Vontade de morrer, sentimento de tristeza profunda, crises de choro, desleixo comigo mesma. Era só o começo. Assumi que algo estava errado e procurei uma psicologa. Logo nas primeiras seções percebi que tinha feito a escolha certa e através dessas consultas fui diagnosticada com depressão e encaminhada a um psiquiatra.

Se fez necessário medicação. Fluoxetina 20 mg que posteriormente foi aumentado para 60 mg. Fui avisada do sono que o medicamento causava, mas não imaginei que fosse tanto. O sono era constante. Em relação ao sono aos poucos houve melhoras, mas com relação a tristeza não houve progresso. A tristeza aumentou muito, a vontade de morrer foi ao ápice e meu interesse pelo trabalho desapareceu. Só queria estar  no quarto, com portas e janelas fechadas. Comecei a chegar atrasada, faltar sem avisar e sem me preocupar. Apenas dormia. O pior momento foi quando parei de tomar banho e escovar os dentes. A casa fedia e eu não me importava. Permaneci por semanas nessa situação até um amigo bateu na minha janela e relutante o atendi. Vendo minha situação me incentivou a tomar um banho e após ele ir embora decidi que em ultima tentativa iria em um pronto atendimento pedir ajuda. Fui e consegui uma consulta de urgência com meu psiquiatra que mudou a medicação para a Venlafaxina e receitou Litium.

Após o período de adaptação ao remédio comecei a ver melhoras no que diz respeito a coragem para limpar a casa e cuidados pessoais.

Mas ainda assim sentia que não era a mesma de antes. Era só uma cópia de mim que fazia aquelas poucas tarefas e sentia um cansaço absurdo, que tomava banho com as ultimas forças que tinha.

Existiram momentos felizes desde então, mas não se comparam aos vividos antes de 2014.
Me considero uma sobrevivente porque o antidepressivo é só uma muleta que uso para me manter de pé, mas ainda assim ainda sinto os pensamentos suicidas. Aprendi a reconhecer o que me causa crise, ou o que pode vir a ser o estopim de uma e tento me manter longe desses fatores. As vezes da certo.

Sobre eu estar curada e ser a mesma de antes, francamente, não acredito nisso. Espero um dia deixar o remédio, mas agora isso é impossível.

A ignorância sobre a doença é um obstaculo doloroso que enfrento.
É difícil acreditar na existência de uma doença que incapacita o indivíduo de sentir-se feliz. Não sabia como explicar que era a doença que me impedia de abrir as janelas da casa, de me entusiasmar com o que antes me dava prazer, e que era ela quem me fazia ansiar pela morte.

Viver com a depressão me limita, mas ainda assim sou a pessoa graduada em Gestão em RH, sou a acadêmica do curso de Psicologia em uma universidade federal, sou a mulher que briga constantemente consigo mesma e teimosa continua a viver. Não sou a depressiva que vai morrer num quarto escuro rodeada de cheiro de morte, digo isso a mim mesma toda vez que penso em desistir. Uma parte de meu cérebro quer me matar, luto contra ela diariamente.

Se você esta a viver com depressão saiba que um (a) psicologo (a) ajuda muito. Não se envergonhe em admitir que não da para conseguir sozinho.

Haverão momentos em que a única opção possível será a morte, mas depois da crise percebe-se a bobagem que teria sido perder para a doença.Não espere ser compreendido por amigos e família, não faça isso por eles. Faça por você.
Percebendo a grande deficiência no sistema de saúde e a enorme desinformação das pessoas sobre o assunto eu escolhi cursar Psicologia. Estou no 3º ano. Quero contribuir.

Quanto a viver com Depressão eu vou sair dessa. De novo e de novo.


6 comentários:

  1. Achei você MARAVILHOSA! LINDA! LINDA! LINDA!,Você existe de verdade, gostaria de lhe ver lhe conhecer deve ser muito gente boa pois tem uma luz própria, adorei você!

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  2. Neuza M. Apesar de ser contra a suas formas de ver a vida sinto um grande prazer em ler suas postagens vc e + que 10 ;)

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  3. Descobri agora seu blog. Talvez você mesma tenha me mandado. Adorei a iniciativa e, logo que tiver uma leitura melhor, te dou uma opinião. desde já achei ótimo.

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    1. Obrigada pela visita prof.
      Suas aulas foram realmente muito esclarecedoras para mim.
      Obrigada por tudo.
      Abraço.

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  4. Que lindo o seu relato! Tenho certeza que irá inspirar muita gente! Sou diagnosticada com Transtorno Bipolar há 16 anos e demorei para encontrar um psiquiatra que me explicasse a doença, os remédios, como as coisas aconteciam. Hoje tento explicar para muita gente, mesmo que grande parte não queira entender... Parabéns pela sua atitude é pela sua superação! <3

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    1. Obrigada. Eu posso imaginar o que você passou. Geralmente as consultas são tão rápidas e de uma frieza desumana. Demorei a entender que alguns comportamentos eram por causa da depressão. Infelizmente os médicos são condicionados a agir daquela forma e quem sofre somos nós e nossas famílias que iniciamos uma luta contra um inimigo que nem ao menos entendemos.
      Parabéns por buscar ajudar outras pessoas, isso mostra que mesmo diante das adversidades da vida você consegue ter empatia. Isso é raro.
      Obrigada pela visita. Abraço.

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